_Lucy? Acorde,_abri lentamente os olhos e vi Papai sorrindo, Eu estava sonolenta por causa do remédio e os demais passageiros do avião estavam desembarcando, soltam palavrões em inglês e outros idiomas quando passavam pelo estreito corredor, nesse momento minha maior decepção foi ser poliglota, ah sim, eu falo mais de cinco línguas diferentes_ acabamos de chegar, venha. Olha só, está nevando! Não é tão diferente assim do Sul, certo?_ me levantei, estiquei meus braços e soltei um bocejo alto, várias pessoas que desembarcavam do avião olharam pra mim, como se eu estivesse de alguma forma zoada, não me indaguei com isso.
_Oi Papai, bom dia?_ Ele sorriu para mim e segurou em minha mão, e a colocou no vidro da janela, olhei para o lado de fora e vi um lindo crepúsculo em meio às nuvens negras de onde pequenos flocos de neve caiam _ Ah Sim, já é noite.
_É sim, minha pequena. Vamos ao Subway mais próximo para que a minha bebê anêmica possa comer um Sanduiche com bastante cheddar como você ama. Pode ser?_ Eu sorri involuntariamente, era de se esperar que eu adoraria a ideia.
_Claro que sim Papai! Está maravilho..._ Ele me interrompeu:
_Daughter, is your English sharp and on the tip of your tongue?(Filha, o seu inglês está afiado e na ponta da língua?)_ ele disse fazendo uma expressão irônica e ao mesmo tempo séria
_Oh non Papa! J'ai juré que nous allions à Paris! ( Oh não Papai, jurava que iriamos para Paris)_ eu respondi arcoando uma das sobrancelhas
_Ah, como duvidar de você!? Você é incrível._ Ele respondeu com um sorriso.
Descemos do avião e um Taxista esperava por nós com uma faixa nitidamente escrita “ Mrs. and Miss Decker”, caminhamos até o taxista, ele segurou na mão de Papai com um sorriso bobo no rosto e disse com um pouco de dificuldade:
_E-é um enorme p-prazer recebé-lo, Senhor. E que bela mocinha o senhor tem. Qual seu nome minha cara?
_Lucy, Lucy Decker_ respondi com um pouco de dificuldade enquanto ele soltava a mão de Papai para segurar a minha, corei um pouco. Mas logo passou.
_Iremos fazer uma alteração no trajeto Jared_ disse Papai ao Taxista_ iremos ao Subway mais próximo para que a minha filha coma algo. Ela dormiu por toda a viagem e tem transtornos alimentares, não pode ficar sem comer_ o taxista abriu a porta para Papai sem dizer mais nada, apenas acenou com a cabeça. Assim que Papai e eu entramos ele a fechou e seguiu para o estabelecimento mais próximo. Deitei sobre o colo de meu pai enquanto ele conversava com o motorista sobre seus planos de negócios no país, até chegarmos ao Subway. O motorista estacionou o táxi amarelo numa enorme faixada no canto da rua, onde uma frota enorme de outros táxis idênticos estavam estacionados.
_Lucy, eu estou conversando, você se importa de ir sozinha? Pegue o meu cartão.
_Tudo bem papai._ eu respondi, acrescentando um sorriso.
Retirei o cartão da carteira q estava dentro de uma maleta ali mesmo no táxi, desci do veículo e caminhei normalmente sobre a neve fofa no chão até a loja. Abri com um pouco de dificuldade a porta do estabelecimento, eu nunca fui boa com coisas do tipo, além de anêmica, eu era muito fraca. As pessoas do local não se encantaram nem um pouco com o meu cabelo, mas também havia um grupo de Punks no local, eram tão ‘trevosos’, bem o tipo que gostaria te ter conhecido no Brasil. Fui diretamente ao caixa. Uma moça baixinha me atendeu. Pedi “o de sempre”, filé de frango com cheddar e uma Coca-Cola. Enquanto fui efetuar o pagamento, enquanto eu digitava a senha do cartão de Papai, percebi que a moça olhava fixamente para as cicatrizes no meu braço, corei, logo peguei a nota fiscal e sai apressada do lugar, uma lágrima caiu no meu rosto, limpei rapidamente e retornei ao carro.
_Tudo bem querida? aconteceu algo teve alguma dificuldade?_ meu pai disse acariciando meu rosto enquanto eu me instalava no carro.
_Não Paizinho, está tudo bem, só estou com um pouco de dor._ Respondi entendo esconder o choro.
_Tudo bem. Jerad, agora seguiremos para casa._ disse ele.
_Sim, senhor._ Disse o taxista ligando o carro e saindo da faixa de estacionamento.
Coloquei meus fones é segui todo o trajeto com a cabeça baixa e em silêncio. Eu não me sentia bem, aquele não era meu lugar, sentia saudade de casa. Eu não queria estar ali, saberia que nunca iria me instalar, e o pior viria na manhã seguinte. Mesmo de fones, conseguia pescar algumas palavras da conversa de Papai e o Taxista:
_ “Trouxe consigo ..... do Brasil?”
_ “Sim, ela e ............... quase mesmo que a de Lucy.....”
Decidi não prestar mais atenção na “conversa de adulto” e passei meu foco para as lindas ruas de Toronto, onde as árvores estavam enfeitadas com piscas-pisca, aquilo me fez sentir saudades do Brasil, pois essas tradições eram feitas em quase todo país. Depois de alguns minutos, paramos na entrada de uma grande casa, que se parecia muito com a casa que eu havia me despedido naquela manhã. Papai se despediu do taxista que seguiu viagem, se virou para mim e disse sorrindo:
_Bom linda, essa é a sua nova casa. Espero que ela te traga mais felicidades que o nosso antigo lar, seja bem vinda!_ nesse momento ele me abraçou, e num tom choroso continuou_ Eu também sinto falta dela meu amor.
_Papai, está tudo bem, o senhor ainda tem a mim...
Nos abraçamos por mais alguns segundos e subimos os poucos degrais que levavam do Jardim até a entrada principal. A Casa por lado de dentro não era muito diferente do que era pelo lado de fora: Um lugar de Burgues, acho que eu era a única pessoa que não se sentia a vontade tendo tudo o que uma pessoa normal pode querer.
Os lustes eram enormes, imaginei como Christian Gray se sentiria em um lugar daquele, era de mais até para ele.
_Lucy, querida? Seu quarto é no segundo andar, terceira porta a direita, tudo o que você precisa vai estar lá dentro. Meu quarto fica no terceiro andar, quarta porta a direita e o escritório fica na porta esquerda em frente. Pode me procurar sempre que eu estiver em casa. Eu irei me deitar, estou cansado da viagem. Boa noite meu amor, qualquer coisa pode me chamar._ ele se aproximou de mim, me dando um abraço e um beijo na testa.
_Boa noite Papai, durma bem._ Respondi.
_Igualmente minha filha._ ele respondeu sorrindo. Subimos juntos as escadas, e como de costume, fui para um lado e ele para p outro.
Fui diretamente para meu quarto, não tive dificuldade de encontrar, uma porta preta escrito "Lucy" com letras brancas, ainda não entendi de onde surgiu essa necessidade. Abri a porta, com um pouco de dificuldade é claro, amassei a ponta do sanduíche que estava em uma sacola em minha mão, "_Ah que maravilha, adeus cheddar." Pensei com ironia. Entrei para o quarto e fechei a porta logo atrás de mim e observei que todas as minhas coisas já estavam ali, desembaladas e organizadas, desde minha coleção de bolinhas de gude, até o vestido mais caro de meu gurda-roupas, que agora seria um closet espaçoso na porta de metal perto da janela. As novidades não paravam por aí, havia um frigobar recheado com meus doces e guloseimas favoritas, e no banheiro uma enorme banheira de porcelana branca, onde eu já havia planejado passar horas do meu dia junto a um livro e uma garrafa de refrigerante.
Entrei em meu novo closet e percebi que minhas roupas estavam organizadas em ordem, retirei meu pijama favorito, perto dos sapatos havia um banquinho do qual usufrui para pegar a toalha de algodão que estava na prateleira alta do closet. Saí, caminhei em direção a minha penteadeira, onde uma cestinha cheia de óleos essenciais para o corpo, shampoos e sabonetes estavam, dentro dela existia um bilhete branco, escrito com letras cursivas de uma caligrafia impecável "Aproveite sua nova suíte, eu te Amo. Papai". Peguei a cesta e fui para o banheiro, liguei a água quente da banheira para que ela pudesse encher, e voltei para o quarto, meu diário estava dentro de uma gaveta no criado mudo, o peguei junto a uma caneta e os coloquei sobre a cama de molas que estava coberta com lençóis de seda brancos e uma colcha macia de algodão. Retornei ao banheiro, desabotoei meu jeans e retirei, a banheira ainda não estava cheia, então voltei ao closet, puxei um roupão do cabideiro e o vesti, sai dali e me dirigi as grandes portas francesas que davam uma vista linda de toda a cidade de Toronto, a neve fofa que já parava de cair anunciando o fim do inverno se prendia no meu cabelo embolado da viagem, o clima frio do fim de inverno não me incomodava nem um pouco. Nasci na única região do meu país onde a neve cobria o chão ao menos uma vez ao ano. Costumava dizer que o frio era meu único amigo. Voltei para dentro, fechei as portas e me dirigi para o banheiro, a banheira estava cheia, desliguei a água e desejei um pouco de óleo, shampoo e sabonete na água, retirei o roupão e o resto de minhas vestes e os pendurei em um porta-toalhas. Escorei-me com uma das mãos na banheira, passei uma perna para dentro dela, a água estava muito quente em comparação a minha pele, retirei a perna e ela estava vermelha, dei um sorriso leve no canto do rosto, e coloquei novamente a perna dentro da banheira, desta vez também a outra e o restante de mim; me sentei de vagar, a água num tom rosado pelos produtos cheirava a lavanda e chocolate. Me acomodei ali enquanto passava a aquela água pelo meu corpo. Depois de alguns minutos me entediei, levantei-me de vagar e coloquei uma das pernas para fora, logo depois a outra. Peguei a toalha e passei pelo meu corpo até estar completamente seca, tomei o meu roupão e o vestir, saindo da li, me atirei sobre a cama fazendo com que o caneta que estava sobre o diário escorregasse para perto de mim. Tomei ambos nas mãos, me levantei e fui até a penteadeira, sentei sobre a a cadeira que estava em frente à ela, coloquei o diário sobre ela e me coloquei a escrever:
"Querido Diário.
Sinceramente estou com dificuldade para esconder o que estou passando. Eu não sei porque Papai insistiu tanto em se mudar,Dentro de dois meses fará um ano que Mamãe se foi. Eu não sei lidar com esse tipo de sentimento, acabo me fazendo mal. É normal sentir falta de uma pessoa como a Mamãe, mas por quê ele foge assim do assunto? Não entendo o motivo das pessoas privarem seus sentimentos, é bem pior no final. Ou talvez eu seja muito sentimental e apegada as coisas. As vezes eu queria ser uma pessoa mais fria e menos dessa forma. A depressão também vem me atrapalhando, os remédios já não fazem efeitos, eu não aguento mais... eu quero morrer! Eu não pertenço a este lugar! Ah Mamãe, por quê? Você se foi... agora eu não sei mais crescer, não quero mais continuar. Tudo outra vez. Eu preciso sair daqui! Mas Papai me vê com bons olhos e também já me matriculou em uma escola da região, iniciarei os estudos amanhã, todos os alunos da escola já sabem da minha chegada, vou ser a 'estrangeira', posso sentir, serei vista como uma aberração e o alvo das piadinhas... Mas tudo bem, logo me acostumo. O pior virá amanhã."
Fechei o diário e o coloquei na gaveta da penteadeira junto a caneta, me levantei e fui em direção a cama, desdobrei um dos edredons e o forrei sobre a cama; me sentei e coloquei as pernas sob o edredom o levantado com meus joelhos, me deitei acomodando a cabeça no travesseiro, bati duas palmas para que as luzes se apagassem, me virei para um dos lados da cama e sussurrei para mim mesma "_Amanhã talvez não seja tão ruim assim." Logo, adormeci.
_____________________________________________
Link Abaixo:
https://my.w.tt/NMYipBfZ7P
Autora: Thatha Silveira

Comentários
Postar um comentário